VALE TUDO



Só mais uma fase ...
por Ariel Velloso (15/01/2008)

Há alguns anos, no início dos anos 90, um garoto completaria cinco anos. Seu pai, em busca de um presente já mais complexo que um simples boneco, carrinho, ou quebra cabeça de 20 peças, resolveu investir num Master System. Sim, houve uma época em que um Master System era o ápice da tecnologia no mundo gamer (em conjunto com o Nes, claro). O fato é que, num final de semana como qualquer outro, o menino abriu a porta do seu quarto e lá estava o videogame em cima da cama. E aquele talvez tenha sido um dos dias mais marcantes de sua vida.

 

Não é difícil de adivinhar que o garoto em questão era eu, certo? Pois bem, joguei por uma hora ou duas, inclusive fazendo uso dos incríveis óculos tridimensionais que vieram junto, e abri a janela do quarto (que estava totalmente engolido na penumbra). Na hora que abri a tal janela, lembro bem até hoje, tive certeza de que havia passado por uma daquelas "experiências que mudam a nossa vida". Mesmo com tão pouca idade, tive um acesso de euforia, como se em um instante tudo em volta houvesse mudado, e o universo fosse agora cheio de novas possibilidades, cores, sons, e mundos a serem explorados.

 

Olhando objetivamente, muitos jogos que eu tive nessa época eram péssimos, servindo mais de enfeite ou como bugiganga pra demonstrar algum acessório desnecessário... Mas imagine-se com 5 anos, vestindo um óculos 3D, se sentindo O GUERREIRO INTERGALÁGTICO, e com um controle em mãos, que lhe garantia inúmeras possibilidades! Na verdade, eram apenas 4 possibilidades de direção, pois se tratava de um jogo de labirinto, MAS MESMO ASSIM ERA INCRÍVEL! Aí que você está lendo e se perguntando "mas que saco de introdução mais prolixa é essa? Cadê o conteúdo desse artigo?". É verdade, eu me alonguei. E no entanto, mostrei exatamente do que venho falar: a sinestesia de se jogar um game, o ato de se perder num mundo virtual, e o poder que meros pixels podem exercer na nossa imaginação.

 

Eu, com cinco anos, não tinha a menor base de comparação com a realidade. Não sabia como as engrenagens do mundo funcionavam, e justamente devido à minha inocência, qualquer jogo, por mais medíocre que fosse, me elevava a uma nova condição de espírito, me espantava. Não vamos tirar o mérito de outros veículos de informação e lazer (filmes, livros, etc) de propiciar sensações similares, mas agora estamos discutindo games, ok? Longe de dizer que ele seja o mais importante, cada uma dessas formas de interação e criatividade têm um valor próprio e intransferível.

 

Voltando ao assunto, uma porção de coisas no mundo ainda é mistério pra mim (de onde viemos? qual o sentido da vida? por que a Sega desaprendeu a fazer jogos bons de Sonic? entre outras...), contudo é óbvio que as minhas noções, visões, filosofias, estão muito mais complexas. Logo, é de se esperar que os jogos já não causem tanto impacto nas minhas vistas cansadas (vovô mode on). Ainda sim, alguns deles ainda têm força pra me tirar da realidade e levar aos confins da minha imaginação. A verdade é que eu estou sempre em busca dessa sensação.

 

Quem é gamer de carteirinha sabe que nós jogamos muita coisa de forma burocrática, pensando "ah, nem gostei tanto desse, mas vou terminar, quero ver o final". Não somos sempre sinceros com nossos instintos, e por diversos motivos, damos atenção a jogos que não são incríveis, que realmente nos prendam. Você joga um Crysis da vida, acha foda, mas acaba e... nada. Aquelas sensação de vazio. Aí você lembra de algum jogo ultra bizarro e obscuro que jogou anos atrás, como "Tiny Toons: Wacky Sports Challenge" (joguei e adorava), que por mais obviamente falho, conseguiu te cativar.

 

Essa sensação especial que se tem com um jogo é extremamente subjetiva, mas acho que dá pra falar em lugares comuns: por exemplo, eu nunca joguei muito, e mesmo assim admito que Mario 64 foi um jogo foda, que quebrou paradigmas, e que a sensação de movimentar aquele encanador de 50 polígonos era (e pra muitos, ainda é) algo único, sem comparações. E a partir daí, podemos perceber que certos jogos não envelhecem. Alguns se tornam clássicos "mundiais", enquanto outros... se tornam clássicos "pessoais".

 

A raiz de tudo isso que eu escrevi são justamente os clássicos "pessoais". Aquele jogo que é uma porcaria tremenda mas você por alguma razão achou incrível. Aquele décima quinta versão de Dance Dance Revolution que repete a mesma fórmula mas que tem uma música que você achou o máximo. A sensação de se jogar mais um Mario Kart, e mesmo tendo a nítida impressão de dejá-vu, passar tardes rindo com colegas por coisas bobas como cascos de tartaruga e bananas na pista. É reconfortante saber que mesmo ganhando ceticismo com a idade, mesmo nos tornando mais sérios e exigentes com o passar dos anos, ainda possamos ser arrebatados por pequenas coisas, experiências simples que definem um momento em nossa vida, nos fazem pensar, ou no mínimo nos divertem para que consigamos continuar encarando a dureza dos fatos cotidianos. E que pra passarmos por todas essas coisas boas, não necessitamos exclusivamente de um novo Final Fantasy, Gears of War ou Mario Galaxy. Um Mario Party pode ser suficiente (não me matem, fãs de Mario Party).

 

Videogame ainda é uma mídia cercada de preconceitos e fortemente subestimada. No entanto, em meio a tudo isso, pessoas como eu e vários amigos que conheço, os "gamers de carteirinha", seguimos coletando memórias que vamos guardar pro resto da vida, como se fossem esmeraldas do Sonic, ou estrelas do Mario, esperando que não exista um limite de 7, ou 120, e sim que possamos sempre ser pegos novamente de surpresa, numa madrugada qualquer após horas de jogo, pensando "ok, esse é a última fase por hoje" e com a certeza que se está vivendo um momento especial. Graças a um game.

 

 

Godoy comenta:

"O" Ariel estuda Design e Planejamento de Games na Universidade Anhembi Morumbi e veio do fundo do mar cantando "Part of Your World" só para escrever para o Umpi.


Guilherme comenta:

Ah Godoy! Pô! Num fode com o clima da matéria. Quase chorei no finalzin ... XD


Excelente texto.




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